Tecnologia Blockchain e Desenvolvimento Sustentável

No dia 29 de maio de 2018 será realizado no Instituto de Economia da Unicamp a Oficina “Tecnologia Blockchain e Desenvolvimento Sustentável”. O evento é organizado pelo Ranulfo Paiva Sobrinho e pelo Professor Ademar Romeiro.

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Oficina_blockchain

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A interface biofísica da Economia Brasileira

Por Junior Ruiz Garcia

O Governo e os analistas apresentam uma única solução para a crise brasileira, a retomada do crescimento do econômico. Contudo, segundo o Banco Mundial, o Brasil é a 9ª maior economia do mundo, um PIB (Produto Interno Bruto) superior a R$ 5 trilhões. Superamos países como Canadá, Coreia do Sul, Austrália, Rússia, Espanha e México. Apesar disso, a sociedade brasileira não tem acesso universal a bens e serviços básicos de qualidade, como educação e saúde, saneamento básico, moradia e transporte público, além de um meio ambiente saudável. Nem mesmo erradicamos o analfabetismo ou a pobreza que assola milhões de famílias, embora o país seja visto como o celeiro do mundo na produção de alimentos.

A solução para a crise brasileira está apoiada no pressuposto de que apenas o crescimento é suficiente para o desenvolvimento, entendido como bem-estar econômico obtido a partir do consumo de bens e serviços. Mas para termos crescimento, a produção deve ser maior do que aquela verificada no ano anterior, porque o crescimento é do fluxo de produção. Para realizar a produção, é preciso recursos naturais, e o resultado é o produto econômico, mas também poluição. Não existe produção sem degradação ambiental. Desse modo, para gerar bem-estar, primeiro geramos mal-estar, degradação ambiental. Essa seria a interface biofísica da economia. Mas qual o tamanho da interface biofísica da economia brasileira?

O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP em inglês), Global Material flows and Resource Productivity, apresenta parte da interface biofísica da economia global e brasileira para 2010. O fluxo global de materiais era de 70 bilhões de toneladas, distribuído em minerais não-metálicos, metais, combustíveis fósseis e biomassa. No Brasil, esse fluxo alcançou 2,7 bilhões de toneladas. Em 2010, a área desmatada na Amazônia alcançou 7 mil km² (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) 1,5 bilhão de toneladas (Estimativas Anuais de Emissões de GEE). Estudos realizados pelo Professor Daniel Caixeta de Andrade, Universidade Federal de Uberlândia, indicam que o consumo material em 1970 era 6,4 toneladas por brasileiro, em 2008 15,4 toneladas, aumento de 138%. A intensidade material da economia brasileira era 3,24 kg/US$ em 1970, em 2008 3,45 kg/US$.

A tecnologia pode auxiliar na intensidade material e na degradação ambiental, embora a realidade mostre outro cenário. Contudo, os ganhos de eficiência têm um limite, ou podemos produzir sem recursos naturais e sem gerar poluição?

Assim, o crescimento econômico aumenta o requerimento material e a poluição, afetando negativamente a qualidade de vida das pessoas. Talvez o mal-estar gerado seja maior que o bem-estar econômico. Além disso, após uma década de aumento no consumo de bens e serviços econômicos (2003-2013), talvez a sociedade brasileira esteja saturada. No Brasil, mais de 98% das residências têm fogão, televisão e geladeira; no período foram vendidos 527 milhões de celulares; entre 2008 e 2014 foram vendidos mais de 90 milhões de televisores; a frota de veículos automotores alcançou 82 milhões de unidades em 2014. Agora o crescimento na produção desses bens é mais difícil, porque o que buscamos é o crescimento do fluxo de produção (PIB) e não do estoque de bens econômicos.

Por que gerar mal-estar para obter mais crescimento na produção desses bens enquanto o déficit habitacional brasileiro alcança 6 milhões; 18% dos brasileiros não são atendidos com abastecimento de água tratada; 42% não têm acesso à coleta de esgoto (60% não é tratado); mais de 10 milhões de brasileiros são analfabetos? O investimento no aumento da provisão desses bens e serviços não proporcionaria uma real melhoria na qualidade de vida dos brasileiros? A produção desses bens e serviços não geraria empregos e renda? Mas por que não fazemos isso? Talvez seja, porque ignoramos a interface biofísica da economia e, com isso, ignoramos os crescentes custos ambientais e sociais do crescimento econômico.

Junior Ruiz Garcia, professor do Departamento de Economia da UFPR e doutor em Desenvolvimento Econômico Espaço e Meio Ambiente pelo Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: jrgarcia@ufpr.br

“A interface biofísica da Economia Brasileira, artigo de Junior Ruiz Garcia,” in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/10/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/10/24/a-interface-biofisica-da-economia-brasileira-artigo-de-junior-ruiz-garcia/.

Degrowth

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Degrowth

Giorgos Kallis, cientista ambiental que trabalha com Economia Ecológica e Ecologia Política e professor visitante do Departamento de Estudos sobre Desenvolvimento na SOAS University of London, publicou em 2018 o livro “degrowth“.

Degrowth” tem emergido nas pesquisas realizadas pelos economistas ecológicos e em outras escolas de pensamento econômico heterodoxo como uma crítica a ideologia (dogma) do crescimento econômico (growthmania) conforme já destacado por Herman Daly. Em vez disso, a abordagem do “decrescimento” (não é antônimo ao crescimento) propõe que é possível uma contração das economias a partir da redução da produção e do consumo sem reduzir o bem-estar. Nesta proposta observa-se um ressurgimento de uma variante teórica e política do ambientalismo, ou “ecologismo”, baseada na premissa chave de que existem “limites ao crescimento”. Isso porque em um mundo com recursos materiais finitos, o crescimento econômico real infinito é impossível.

Embora essa não seja uma discussão relativamente recente, nos últimos anos a literatura sobre o decrescimento deu-lhe nova forma ao reunir diferentes disciplinas e escolas de pensamento na formulação de suas críticas e proposições centrais. Dessa maneira, o decrescimento está apoiado em uma abordagem transdisciplinar conforme proposto pela Economia Ecológica. O objetivo central do livro “degrowth” é resumir os elementos centrais da proposta de “decrescimento” de forma breve, sucinta e simples. Na tentativa de divulgar e consolidar as discussões sobre o “decrescimento” no campo da Economia Ecológica, além de delinear seus elementos centrais. O livro explora o que seria necessário para uma economia passar para uma posição que lhe permitisse prosperar sem crescimento.

Giorgos Kallis (2018): degrowth. Agenda Publishing, Columbia University Press, January 2018, ISBN 9781911116806 (paperback) e ISBN 9781911116790 (hardcover)
ISBN 978-3-7316-1298-8
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Macroeconomics Without Growth

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Macroeconomics Without Growth

Steffen Lange, economista e pesquisador do Institute for Ecological Economy Research, em Berlim, publicou em 2018 sua dissertação “Macroeconomics Without Growth: Sustainable Economies in Neoclassical, Keynesian and Marxian Theories”. Neste trabalho, Steffen Lange empreendeu uma análise abrangente sobre como uma economia sem crescimento (growth-free) poderia ser administrada de uma perspectiva macroeconômica. Para isso, o autor destaca que um conjunto de teorias econômicas, tais como da Economia Neoclássica, Keynesiana e Marxista, poderia auxiliar na definição das políticas macroeconômicas de uma economia livre do crescimento.

A conclusão do estudo, a partir de uma perspectiva teórica, é que seria possível gerenciar de maneira sustentável economias modernas sem crescimento. O próximo passo seria desenvolver conceitos para alcançar o não crescimento sustentável em uma economia moderna como a da Alemanha, por exemplo.

No estudo Macroeconomics Without Growth, o Steffen Lange demonstra a necessidade de políticas econômicas que permitam o gerenciamento de uma economia sustentável sem crescimento e, portanto, social e ecologicamente justa e estável. Isso exige uma abordagem fundamentalmente nova da política econômica, ao invés de pequenos ajustes ao status quo. Para esse fim, Steffen Lange apresenta em seu estudo as seguintes propostas:

  • Tributação do uso de energia e recursos, em vez de salários;
  • Redução da desigualdade de renda por meio de políticas fiscais e tributárias apropriadas;
  • Apoio financeiro e jurídico a empresas estruturadas democraticamente, em vez de uma maior regulamentação das empresas orientadas para os acionistas;
  • Implementação de instrumentos legais e financeiros para reduzir o horário de trabalho dos funcionários (redução da jornada de trabalho).

Segundo Arne Heise, professora de macroeconomia da Universidade de Hamburgo, “Steffen Lange forneceu um incrível trabalho” no que se refere ao lançamento de livros pendentes. “O livro tem boas chances de se tornar um livro-texto para os economistas ecológicos no devido tempo”.

Steffen Lange (2018): Macroeconomics Without Growth: Sustainable Economies in Neoclassical, Keynesian and Marxian Theories, Wirtschaftswissenschaftliche Nachhaltigkeitsforschung Band 19, Metropolis-Verlag, Marburg
586 pages, language: English
ISBN 978-3-7316-1298-8
Pricing: €34.80, e-book: €28.54
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O desenvolvimento de uma macroeconomia ecológica orientada pela demanda e a questão do desemprego sob restrições ecológicas

Gustavo de Oliveira Aggio publicou o Texto para Discussão “O desenvolvimento de uma macroeconomia ecológica orientada pela demanda e a questão do desemprego sob restrições ecológicas” no Instituto de Economia da Unicamp (clique aqui para baixar o texto).

O estudo busca discutir o desenvolvimento de uma macroeconomia ecológica orientada pela demanda, ou seja, estreitamente relacionada à abordagem Keynesiana. O aspecto interessante é que a análise baseada na Economia Keynesiana foi desenvolvida a partir dos pressupostos da Economia Ecológica. Essa análise se justifica em função da preocupação dos economistas ecológicos com os efeitos negativos do crescimento econômico sobre os sistemas biofísicos. No entanto, os economistas que adotam o pressuposto de que a demanda tem um papel central na economia estão preocupados apenas com os fatores que possam gerar falta de demanda e, consequentemente, desemprego involuntário.

Neste contexto, o estudo desenvolvido por Gustavo de Oliveira Aggio procura explicar esta aproximação de escolas do pensamento com elementos potencialmente conflitantes, além de apresentar um conjunto muito recente de resultados sobre o desemprego na dinâmica destes modelos.

Acesse o Texto para Discussão.

A Economia deve ser também Ecológica

Fonte: Folha de Londrina.

Reportagem de Victor Lopes para o Caderno Especial da Folha de Londrina sobre Clima e Economia.

Apesar de depender de recursos naturais para sobreviver, modelo econômico vigente no planeta não inclui a dimensão ambiental na tomada de decisões.

“A economia cresceu e isso está apenas começando. Vamos crescer e não vamos perder empregos. Pela gente deste país, saímos do acordo (de Paris)”. O mundo entrou em choque com essa declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, no início de junho, quando ele anunciou a saída dos norte-americanos do Acordo de Paris, aprovado por 195 países, cujo principal objetivo é reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) no contexto de um desenvolvimento sustentável para o planeta.

Na cabeça do polêmico presidente, crescimento econômico não está necessariamente ligado às questões ambientais. Para ele, são assuntos completamente distintos. Mas a realidade nua e crua é que o modelo econômico vigente no planeta, de forma conceitual, de fato não se preocupa com o meio ambiente. O leitor já parou para pensar qual é o peso das questões ambientais na formação de políticas econômicas de países, estados, cidades, ou mesmo empresas? São casos de exceção, é como achar agulha no palheiro. Trump, na verdade, não está sozinho.

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Por que devemos abandonar o foco em PIB e crescimento

Por Lorenzo Fioramonti, professor de Economia Política na Universidade de Pretoria (África do Sul), onde dirige o Centro para Estudo da Inovação em Governança.

Publicado originalmente em The Conversation, May 28, 2017. Acesse o artigo original.

O artigo foi traduzido por João Pedro Caleiro com permissão do autor, publicado em 18 de junho de 2017, no Portal Exame.com. Acesse o artigo traduzido.

“Se um país corta e vende todas as suas árvores, ganha um impulso no PIB. Mas nada acontece se ele as preservar”, diz professor sul-africano

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A ideia de que o “bolo” econômico pode crescer indefinidamente é sedutora. Significa que todos podem ter um pedaço sem precisar limitar a ganância de ninguém.

A desigualdade fora de controle se torna então socialmente aceitável, porque esperamos que o crescimento econômico eventualmente deixe todos em uma situação melhor.Em meu novo livro “Wellbeing Economy: Success in a World Without Growth” [“A Economia do Bem-Estar: Sucesso em um Mundo sem Crescimento”, em tradução livre] eu aponto que a regra de “crescer primeiro” dominou o mundo desde o início do século XX.

Nenhuma outra ideologia foi tão poderosa: a obsessão pelo crescimento atravessou tanto sociedades capitalistas quanto socialistas.

Mas o que exatamente é o crescimento? Estranhamente, esta noção nunca foi desenvolvida de forma razoável.

Para o senso comum, há crescimento quando – todo o resto mantido constante – nossa riqueza geral aumenta. O crescimento acontece quando geramos valor que não estava lá antes: por exemplo, ao educar as crianças, melhorar nossa saúde ou preparar alimentos. Uma pessoa mais saudável, educada e bem nutrida é certamente um exemplo de crescimento.

Se qualquer destas atividades gerar alguns custos, para nós individualmente ou para a sociedade, o deduzimos do valor criado. Por essa abordagem lógica, o crescimento equivale a todos os ganhos menos todos os custos.

De forma paradoxal, nosso modelo de crescimento econômico faz exatamente o oposto do que o senso comum sugere.

Valores negativos do crescimento

Aqui vão alguns exemplos. Se eu vendo meu rim por algum dinheiro, então a economia cresce. Mas se eu educo meus filhos, preparo alimentos e cozinho para minha comunidade, melhorando as condições de saúde do meu povo, o crescimento não acontece.

Se um país corta e vende todas as suas árvores, ganha um impulso no Produto Interno Bruto (PIB). Mas nada acontece se ele as preservar.

Se um país preserva espaços abertos como parques e reservas naturais para o benefício de todos, ele não vê essa melhora no bem-estar humano e ecológico refletida em sua performance econômica.

Mas se os privatiza, comercializando os recursos presentes e cobrando taxas dos usuários, então o crescimento acontece.

Preservar nossa infraestrutura, a tornando durável, de longo prazo e gratuita adiciona zero ou apenas marginalmente para o crescimento.

Destruir, reconstruir e fazer com que as pessoas paguem para usá-la, por sua vez, é um impulso para a economia do crescimento.

Deixar as pessoas saudáveis não tem valor. Deixá-las doente tem. Um sistema de saúde público efetivo e de prevenção está aquém do ideal para o crescimento: é melhor ter um sistema altamente desigual e disfuncional como o americano, que responde por quase 20% do PIB do país.

Guerras, conflitos, crimes e corrupção são amigos do crescimento no sentido de que forçam as sociedades a construir e comprar armas, instalar travas de segurança e aumentar o valor que o governo paga em contratos.

O terremoto em Fukushima, assim como o derramamento de óleo da Deepwater Horizon, foram maná para o crescimento, pois exigiram gastos imensos para limpar a bagunça e reconstruir o que foi destruído.

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Fonte: Exame.com

Os japoneses, a liberdade monetária e o Bitcoin

Por Ranulfo Paiva Sobrinho e Junior Garcia

A população agora tem o direito e o poder para escolher quais tipos de dinheiro usar em seu dia-a-dia

O Japão se tornou, em 2017, o maior mercado de câmbio de Bitcoin, superando a China e os Estados Unidos. O avanço da diversificação da economia monetária japonesa não está relacionado apenas ao declínio do mercado chinês, mas à regulamentação do mercado. Em maio de 2016, o Gabinete do Japão aprovou uma série de ações que concederam ao Bitcoin e outras moedas virtuais o status de dinheiro, ou seja, abrindo espaço para sua circulação em paridade com a moeda oficial, o iene. Essa medida contribuiu para aumentar a aceitação do Bitcoin e outras moedas digitais no mercado monetário e financeiro japonês. A BitFyer, bolsa japonesa de Bitcoin, aumentou o volume negociado, alcançando um volume diário superior a US$ 80 milhões. Em uma economia amparada na confiança institucional, a ausência de regulamentação das moedas digitais afetava sua aceitação.
Outra importante mudança institucional foi o reconhecimento do Bitcoin como meio de pagamento oficial a partir de 1.º de abril de 2017. O fato de o governo japonês reconhecer o Bitcoin como um meio oficial de pagamento pode ser uma evidência de que importantes mudanças estão em curso no mercado monetário e financeiro mundial. Claro que essa decisão também foi influenciada pela ação das pessoas que já estavam aceitando a criptomoeda mesmo antes de o governo aceitá-la. Mas o grande avanço é que a população agora tem o direito e o poder para escolher quais tipos de dinheiro usar em seu dia-a-dia.

“O dinheiro que usamos diariamente é criado a partir de endividamento; com o Bitcoin não é assim”

 Os japoneses têm acesso a dois tipos de dinheiro criados de forma totalmente distintas, o que aumenta a resiliência da sua economia. O iene é criado pelo Banco Central do Japão toda vez que ele compra algo, principalmente títulos de dívida do governo japonês ou de empresas governamentais. Os demais bancos comerciais também criam o iene quando algum cliente se endivida no sistema bancário. Isso significa que o dinheiro que usamos diariamente é criado a partir de endividamento. Esse processo trata-se simplesmente de registros numéricos que, quando necessário, são transformados pelo banco central em moeda ou dinheiro. O Bitcoin não é criado via endividamento, mas quando algum participante do sistema resolve uma charada matemática, o que lhe permite inserir dados no blockchain.
O fato de o Japão ser a primeira economia no mundo a aceitar oficialmente uma criptomoeda como meio oficial de pagamento não é surpresa. Desde que a bolha econômica japonesa estourou em 1990, causando sérios problemas sociais para seus cidadãos, o governo e a sociedade organizada iniciaram uma série de experiências usando outros tipos de dinheiro para solucionar problemas ambientais e sociais.
Aqui no Brasil, a maioria dos brasileiros nem sequer pensa que tem o direito de escolher qual tipo de dinheiro pode usar como meio de pagamento. No Japão e outros países, as pessoas aceitam o Bitcoin porque confiam na segurança de seu sistema, e em função de seu elevado preço, sua cotação no mercado de câmbio. Isso é diferente de aceitar um tipo de dinheiro às cegas, como ocorre no Brasil e outros países, onde a maioria das pessoas desconhecem que são obrigadas a aceitar o dinheiro do governo, que apenas tem beneficiado o negócio dos bancos autorizados a criar moeda. E, em um país cujos juros são elevados, o resultado tem sido o aumento das desigualdades. Apesar da crise que assola o Brasil, o setor bancário registra lucros bilionários, enquanto o desemprego afeta 13 milhões de famílias.
A atual crise abre espaço para que os brasileiros exijam mais liberdade no mercado monetário e financeiro, e possam se livrar dos escandalosos juros do mercado de crédito. A sociedade não deve ser escrava de um sistema que nos obriga a aceitar um único tipo de dinheiro lastreado pelo endividamento e pela incidência de elevadas taxas de juros. Quando a sociedade brasileira vai acordar e ver que o século 21 já começou há quase duas décadas?
Ranulfo Paiva Sobrinho é doutor em Desenvolvimento Econômico e cofundador da Sustainability School. Junior Garcia, doutor em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente, é professor do Departamento de Economia da UFPR.
Publicado na Gazeta do Povo, 17/04/2017, Caderno de Opinião.