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A Economia deve ser também Ecológica

Fonte: Folha de Londrina.

Reportagem de Victor Lopes para o Caderno Especial da Folha de Londrina sobre Clima e Economia.

Apesar de depender de recursos naturais para sobreviver, modelo econômico vigente no planeta não inclui a dimensão ambiental na tomada de decisões.

“A economia cresceu e isso está apenas começando. Vamos crescer e não vamos perder empregos. Pela gente deste país, saímos do acordo (de Paris)”. O mundo entrou em choque com essa declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, no início de junho, quando ele anunciou a saída dos norte-americanos do Acordo de Paris, aprovado por 195 países, cujo principal objetivo é reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) no contexto de um desenvolvimento sustentável para o planeta.

Na cabeça do polêmico presidente, crescimento econômico não está necessariamente ligado às questões ambientais. Para ele, são assuntos completamente distintos. Mas a realidade nua e crua é que o modelo econômico vigente no planeta, de forma conceitual, de fato não se preocupa com o meio ambiente. O leitor já parou para pensar qual é o peso das questões ambientais na formação de políticas econômicas de países, estados, cidades, ou mesmo empresas? São casos de exceção, é como achar agulha no palheiro. Trump, na verdade, não está sozinho.

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A interface biofísica da Economia Brasileira

Por Junior Ruiz Garcia

O Governo e os analistas apresentam uma única solução para a crise brasileira, a retomada do crescimento do econômico. Contudo, segundo o Banco Mundial, o Brasil é a 9ª maior economia do mundo, um PIB (Produto Interno Bruto) superior a R$ 5 trilhões. Superamos países como Canadá, Coreia do Sul, Austrália, Rússia, Espanha e México. Apesar disso, a sociedade brasileira não tem acesso universal a bens e serviços básicos de qualidade, como educação e saúde, saneamento básico, moradia e transporte público, além de um meio ambiente saudável. Nem mesmo erradicamos o analfabetismo ou a pobreza que assola milhões de famílias, embora o país seja visto como o celeiro do mundo na produção de alimentos.

A solução para a crise brasileira está apoiada no pressuposto de que apenas o crescimento é suficiente para o desenvolvimento, entendido como bem-estar econômico obtido a partir do consumo de bens e serviços. Mas para termos crescimento, a produção deve ser maior do que aquela verificada no ano anterior, porque o crescimento é do fluxo de produção. Para realizar a produção, é preciso recursos naturais, e o resultado é o produto econômico, mas também poluição. Não existe produção sem degradação ambiental. Desse modo, para gerar bem-estar, primeiro geramos mal-estar, degradação ambiental. Essa seria a interface biofísica da economia. Mas qual o tamanho da interface biofísica da economia brasileira?

O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP em inglês), Global Material flows and Resource Productivity, apresenta parte da interface biofísica da economia global e brasileira para 2010. O fluxo global de materiais era de 70 bilhões de toneladas, distribuído em minerais não-metálicos, metais, combustíveis fósseis e biomassa. No Brasil, esse fluxo alcançou 2,7 bilhões de toneladas. Em 2010, a área desmatada na Amazônia alcançou 7 mil km² (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e as emissões de gases de efeito estufa (GEE) 1,5 bilhão de toneladas (Estimativas Anuais de Emissões de GEE). Estudos realizados pelo Professor Daniel Caixeta de Andrade, Universidade Federal de Uberlândia, indicam que o consumo material em 1970 era 6,4 toneladas por brasileiro, em 2008 15,4 toneladas, aumento de 138%. A intensidade material da economia brasileira era 3,24 kg/US$ em 1970, em 2008 3,45 kg/US$.

A tecnologia pode auxiliar na intensidade material e na degradação ambiental, embora a realidade mostre outro cenário. Contudo, os ganhos de eficiência têm um limite, ou podemos produzir sem recursos naturais e sem gerar poluição?

Assim, o crescimento econômico aumenta o requerimento material e a poluição, afetando negativamente a qualidade de vida das pessoas. Talvez o mal-estar gerado seja maior que o bem-estar econômico. Além disso, após uma década de aumento no consumo de bens e serviços econômicos (2003-2013), talvez a sociedade brasileira esteja saturada. No Brasil, mais de 98% das residências têm fogão, televisão e geladeira; no período foram vendidos 527 milhões de celulares; entre 2008 e 2014 foram vendidos mais de 90 milhões de televisores; a frota de veículos automotores alcançou 82 milhões de unidades em 2014. Agora o crescimento na produção desses bens é mais difícil, porque o que buscamos é o crescimento do fluxo de produção (PIB) e não do estoque de bens econômicos.

Por que gerar mal-estar para obter mais crescimento na produção desses bens enquanto o déficit habitacional brasileiro alcança 6 milhões; 18% dos brasileiros não são atendidos com abastecimento de água tratada; 42% não têm acesso à coleta de esgoto (60% não é tratado); mais de 10 milhões de brasileiros são analfabetos? O investimento no aumento da provisão desses bens e serviços não proporcionaria uma real melhoria na qualidade de vida dos brasileiros? A produção desses bens e serviços não geraria empregos e renda? Mas por que não fazemos isso? Talvez seja, porque ignoramos a interface biofísica da economia e, com isso, ignoramos os crescentes custos ambientais e sociais do crescimento econômico.

Junior Ruiz Garcia, professor do Departamento de Economia da UFPR e doutor em Desenvolvimento Econômico Espaço e Meio Ambiente pelo Instituto de Economia da Unicamp. E-mail: jrgarcia@ufpr.br

“A interface biofísica da Economia Brasileira, artigo de Junior Ruiz Garcia,” in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/10/2016, https://www.ecodebate.com.br/2016/10/24/a-interface-biofisica-da-economia-brasileira-artigo-de-junior-ruiz-garcia/.

Por que devemos abandonar o foco em PIB e crescimento

Por Lorenzo Fioramonti, professor de Economia Política na Universidade de Pretoria (África do Sul), onde dirige o Centro para Estudo da Inovação em Governança.

Publicado originalmente em The Conversation, May 28, 2017. Acesse o artigo original.

O artigo foi traduzido por João Pedro Caleiro com permissão do autor, publicado em 18 de junho de 2017, no Portal Exame.com. Acesse o artigo traduzido.

“Se um país corta e vende todas as suas árvores, ganha um impulso no PIB. Mas nada acontece se ele as preservar”, diz professor sul-africano

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Fonte da imagem: http://cdn.ecycle.com.br/images/eDicas/meioambiente/desmatamento.jpg

A ideia de que o “bolo” econômico pode crescer indefinidamente é sedutora. Significa que todos podem ter um pedaço sem precisar limitar a ganância de ninguém.

A desigualdade fora de controle se torna então socialmente aceitável, porque esperamos que o crescimento econômico eventualmente deixe todos em uma situação melhor.Em meu novo livro “Wellbeing Economy: Success in a World Without Growth” [“A Economia do Bem-Estar: Sucesso em um Mundo sem Crescimento”, em tradução livre] eu aponto que a regra de “crescer primeiro” dominou o mundo desde o início do século XX.

Nenhuma outra ideologia foi tão poderosa: a obsessão pelo crescimento atravessou tanto sociedades capitalistas quanto socialistas.

Mas o que exatamente é o crescimento? Estranhamente, esta noção nunca foi desenvolvida de forma razoável.

Para o senso comum, há crescimento quando – todo o resto mantido constante – nossa riqueza geral aumenta. O crescimento acontece quando geramos valor que não estava lá antes: por exemplo, ao educar as crianças, melhorar nossa saúde ou preparar alimentos. Uma pessoa mais saudável, educada e bem nutrida é certamente um exemplo de crescimento.

Se qualquer destas atividades gerar alguns custos, para nós individualmente ou para a sociedade, o deduzimos do valor criado. Por essa abordagem lógica, o crescimento equivale a todos os ganhos menos todos os custos.

De forma paradoxal, nosso modelo de crescimento econômico faz exatamente o oposto do que o senso comum sugere.

Valores negativos do crescimento

Aqui vão alguns exemplos. Se eu vendo meu rim por algum dinheiro, então a economia cresce. Mas se eu educo meus filhos, preparo alimentos e cozinho para minha comunidade, melhorando as condições de saúde do meu povo, o crescimento não acontece.

Se um país corta e vende todas as suas árvores, ganha um impulso no Produto Interno Bruto (PIB). Mas nada acontece se ele as preservar.

Se um país preserva espaços abertos como parques e reservas naturais para o benefício de todos, ele não vê essa melhora no bem-estar humano e ecológico refletida em sua performance econômica.

Mas se os privatiza, comercializando os recursos presentes e cobrando taxas dos usuários, então o crescimento acontece.

Preservar nossa infraestrutura, a tornando durável, de longo prazo e gratuita adiciona zero ou apenas marginalmente para o crescimento.

Destruir, reconstruir e fazer com que as pessoas paguem para usá-la, por sua vez, é um impulso para a economia do crescimento.

Deixar as pessoas saudáveis não tem valor. Deixá-las doente tem. Um sistema de saúde público efetivo e de prevenção está aquém do ideal para o crescimento: é melhor ter um sistema altamente desigual e disfuncional como o americano, que responde por quase 20% do PIB do país.

Guerras, conflitos, crimes e corrupção são amigos do crescimento no sentido de que forçam as sociedades a construir e comprar armas, instalar travas de segurança e aumentar o valor que o governo paga em contratos.

O terremoto em Fukushima, assim como o derramamento de óleo da Deepwater Horizon, foram maná para o crescimento, pois exigiram gastos imensos para limpar a bagunça e reconstruir o que foi destruído.

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Fonte: Exame.com

Os japoneses, a liberdade monetária e o Bitcoin

Por Ranulfo Paiva Sobrinho e Junior Garcia

A população agora tem o direito e o poder para escolher quais tipos de dinheiro usar em seu dia-a-dia

O Japão se tornou, em 2017, o maior mercado de câmbio de Bitcoin, superando a China e os Estados Unidos. O avanço da diversificação da economia monetária japonesa não está relacionado apenas ao declínio do mercado chinês, mas à regulamentação do mercado. Em maio de 2016, o Gabinete do Japão aprovou uma série de ações que concederam ao Bitcoin e outras moedas virtuais o status de dinheiro, ou seja, abrindo espaço para sua circulação em paridade com a moeda oficial, o iene. Essa medida contribuiu para aumentar a aceitação do Bitcoin e outras moedas digitais no mercado monetário e financeiro japonês. A BitFyer, bolsa japonesa de Bitcoin, aumentou o volume negociado, alcançando um volume diário superior a US$ 80 milhões. Em uma economia amparada na confiança institucional, a ausência de regulamentação das moedas digitais afetava sua aceitação.
Outra importante mudança institucional foi o reconhecimento do Bitcoin como meio de pagamento oficial a partir de 1.º de abril de 2017. O fato de o governo japonês reconhecer o Bitcoin como um meio oficial de pagamento pode ser uma evidência de que importantes mudanças estão em curso no mercado monetário e financeiro mundial. Claro que essa decisão também foi influenciada pela ação das pessoas que já estavam aceitando a criptomoeda mesmo antes de o governo aceitá-la. Mas o grande avanço é que a população agora tem o direito e o poder para escolher quais tipos de dinheiro usar em seu dia-a-dia.

“O dinheiro que usamos diariamente é criado a partir de endividamento; com o Bitcoin não é assim”

 Os japoneses têm acesso a dois tipos de dinheiro criados de forma totalmente distintas, o que aumenta a resiliência da sua economia. O iene é criado pelo Banco Central do Japão toda vez que ele compra algo, principalmente títulos de dívida do governo japonês ou de empresas governamentais. Os demais bancos comerciais também criam o iene quando algum cliente se endivida no sistema bancário. Isso significa que o dinheiro que usamos diariamente é criado a partir de endividamento. Esse processo trata-se simplesmente de registros numéricos que, quando necessário, são transformados pelo banco central em moeda ou dinheiro. O Bitcoin não é criado via endividamento, mas quando algum participante do sistema resolve uma charada matemática, o que lhe permite inserir dados no blockchain.
O fato de o Japão ser a primeira economia no mundo a aceitar oficialmente uma criptomoeda como meio oficial de pagamento não é surpresa. Desde que a bolha econômica japonesa estourou em 1990, causando sérios problemas sociais para seus cidadãos, o governo e a sociedade organizada iniciaram uma série de experiências usando outros tipos de dinheiro para solucionar problemas ambientais e sociais.
Aqui no Brasil, a maioria dos brasileiros nem sequer pensa que tem o direito de escolher qual tipo de dinheiro pode usar como meio de pagamento. No Japão e outros países, as pessoas aceitam o Bitcoin porque confiam na segurança de seu sistema, e em função de seu elevado preço, sua cotação no mercado de câmbio. Isso é diferente de aceitar um tipo de dinheiro às cegas, como ocorre no Brasil e outros países, onde a maioria das pessoas desconhecem que são obrigadas a aceitar o dinheiro do governo, que apenas tem beneficiado o negócio dos bancos autorizados a criar moeda. E, em um país cujos juros são elevados, o resultado tem sido o aumento das desigualdades. Apesar da crise que assola o Brasil, o setor bancário registra lucros bilionários, enquanto o desemprego afeta 13 milhões de famílias.
A atual crise abre espaço para que os brasileiros exijam mais liberdade no mercado monetário e financeiro, e possam se livrar dos escandalosos juros do mercado de crédito. A sociedade não deve ser escrava de um sistema que nos obriga a aceitar um único tipo de dinheiro lastreado pelo endividamento e pela incidência de elevadas taxas de juros. Quando a sociedade brasileira vai acordar e ver que o século 21 já começou há quase duas décadas?
Ranulfo Paiva Sobrinho é doutor em Desenvolvimento Econômico e cofundador da Sustainability School. Junior Garcia, doutor em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente, é professor do Departamento de Economia da UFPR.
Publicado na Gazeta do Povo, 17/04/2017, Caderno de Opinião.

Será que os Empreendedores, as Pessoas e o Governo Realmente se Beneficiam do Crescimento Econômico?

Por Ranulfo Paiva Sobrinho e Junior Garcia

Se você fizer essa pergunta para algum político ou economista, provavelmente as respostas sejam as seguintes:

“Sim. Todos se beneficiam do crescimento econômico”.

“A população se beneficia por ter mais empregos e aumento de sua renda. Os empreendedores se beneficiam porque vendem e lucram mais”.

“Além dos empreendedores e a população, os governos também se beneficiam, pois, haveria maior arrecadação de impostos”

Entretanto, será que essas respostas refletem a realidade? Será mesmo que o crescimento econômico beneficia a população, os empreendedores e os governos?

Para identificar quem se beneficia do crescimento econômico, antes é preciso saber qual o seu significado. O que é o crescimento econômico?

De forma simplificada, pode-se dizer que o crescimento econômico é uma medida da variação positiva da quantidade de bens e serviços finais produzidos e vendidos em determinado período de tempo por um país ou região. Essa quantidade pode aumentar (crescimento econômico), reduzir (recessão) ou se manter igual entre períodos (estagnação).

Como o crescimento econômico é medido e quais as implicações dessa mensuração?

A maioria das pessoas sabe que o crescimento econômico é medido através do produto interno bruto (PIB). O PIB, por sua vez, representa a quantidade de produtos, serviços finais produzidos e vendidos em um determinado período de tempo (trimestral, semestral, anual). Um importante desafio na mensuração do PIB é somar bens e serviços heterogêneos, tais como carros com bicicletas, feijão e serviços de saúde. Verifica-se que o produto econômico é heterogêneo, portanto, seu cálculo envolve primeiramente resolver esse problema. A ‘solução’ encontrada foi converter todos os produtos em valores monetários, tornando-os homogêneos. Essa ‘solução’ possui dois problemas muito sérios: (1) oculta as consequências negativas da produção geradas à natureza, isto é, a interface biofísica do PIB; (2) coloca a economia de um país dependente de empresas financeiras que detêm o oligopólio de endividar as famílias, empresas e governos.

Interface biofísica do crescimento econômico

A produção de qualquer bem ou serviço econômico requer um fluxo de matéria e energia. Desse modo, a produção econômica está sujeita às leis da termodinâmica: a lei da conservação de energia (1ª Lei da Termodinâmica) e a Lei da Entropia (2ª Lei da Termodinâmica). Isto significa que não existe produção, mas apenas a transformação de matéria e energia de baixa entropia em bens e serviços econômicos, que invariavelmente também resultará na degradação dos recursos naturais, seja via extração seja via lançamento de rejeitos no ambiente, a poluição.

Neste sentido, a interface biofísica do produto econômico é avaliada pelas consequências ocasionadas pela produção e venda dos bens e serviços de um país ou região ao meio ambiente e as pessoas. O crescimento econômico da China somente tem sido possível pela expansão de crédito pelo seu sistema bancário e às custas da degradação de rios, dos solos, do ar e da destruição de vários ecossistemas, que em sua maioria não tem preços de mercado. Portanto, o método de mensuração do crescimento econômico oculta a degradação ambiental.

Dependência da economia de um país frente as instituições financeiras

Assume-se como verdade que, na maioria das vezes, para produzir e consumir algum produto e\ou serviço econômico, geralmente, é preciso ter dinheiro. Significa que empresas, governos e pessoas precisam ter “Reais (R$)” à sua disposição1, seja em efetivo e\ou eletrônico, para realizar a produção e o consumo. Supondo que essa lógica esteja correta, consequentemente, no Brasil, o PIB é medido em Reais, nos EUA ele é medido em Dólares, enfim, em cada país ele é medido considerando a moeda oficial.

Como se pode perceber no cálculo do PIB somente são incluídas as transações comerciais realizadas entre governo, empreendedores e clientes em que se utilizam a moeda oficial de cada país. Até aqui nenhuma novidade, porém, por trás dessa simples afirmação está um importante ‘insight’: o fato de existir um indicador econômico (PIB) que somente considera as transações envolvendo a moeda oficial pode ser benéfico para as instituições financeiras autorizadas a fornecer “Reais” no Brasil. As pessoas, empresas e governos dependem de um único tipo de dinheiro, o “Real”, cujo controle da emissão depende dos bancos ou do sistema bancário, principalmente.

Imagine a seguinte situação: no país hipotético chamado “País-X”, a saúde da população é medida com base na quantidade consumida de bananas. Assume-se como verdade que quanto maior a quantidade de bananas consumidas durante o ano, melhor a saúde da população daquela nação. Naquele país existem outras frutas, além de legumes que também fazem bem para a saúde, mas o seu consumo não é incentivado, pois, o governo determinou por lei que somente a quantidade consumida de bananas é a medida oficial da saúde da população. Neste contexto, os maiores beneficiados são as empresas governamentais e privadas que são autorizadas a produzir e distribuir bananas, pois, as pessoas daquele país podem obter a referida fruta somente das empresas autorizadas, ou seja, do sistema oficial.

No País-X a população não pode se organizar para produzir bananas em seus bairros ou regionalmente, porque é proibido em lei. Elas dependem das empresas autorizadas e as restrições mencionadas foram implantadas para que as empresas bananicultoras não tenham concorrentes, e assim, possam fortalecer seus negócios. Além disso, a população desconhece que comer outras frutas e alimentos também pode melhorar a saúde. Desse modo, a saúde da população é afetada negativamente por sua dependência obrigatória que possuem com os referidos produtores de bananas.

O importante é entender a analogia entre o PIB e a mensuração da saúde no País-X. Nesta analogia, a saúde da população do país-X representa o PIB, o qual infelizmente e equivocadamente é usada para representar a medida da riqueza ou mesmo de renda. As bananas representam o “Real”, as empresas bananicultoras governamentais e privadas representam as instituições financeiras autorizadas a endividar pessoas, empresas e governos. Outras frutas e legumes representam outros tipos de dinheiro que não são controlados pelas referidas instituições financeiras, portanto, não são incentivados para serem utilizadas pela população, empreendedores e governos. Para esclarecer o que são os outros tipos de dinheiro sugiro a leitura dos materiais da Sustainability.School.

Historicamente, a existência de outros tipos de dinheiro tem se mostrado benéfica para as pessoas, empreendedores e governos. Contudo, outros tipos de dinheiro não são benéficos para os negócios das empresas financeiras autorizadas a endividar a população, consequentemente, as transações realizadas com outros tipos de dinheiro são excluídas do PIB e não são consideradas no cálculo do crescimento econômico.

Relação do PIB com o sistema bancário

Conforme já mencionado, para produzir e consumir geralmente é preciso ter Reais. De forma simplificada, havendo mais Reais à disposição das empresas e da população, haverá, respectivamente, mais produção e consumo, consequentemente, o PIB cresce. Em outras palavras, o PIB cresce na medida que as pessoas (consumidoras) e empresas (produtoras) possuem à sua disposição Reais para atender as suas necessidades e, principalmente, tenham condições de continuar pagando em dia os juros dos empréstimos contraídos para consumir e\ou produzir. A continuidade do pagamento em dia dos juros oriundos das dívidas contraídas pelas pessoas, empresas e governos é uma condição raramente mencionada, apesar de sua importância.

Sabe-se que se uma pessoa ou empresa precisa de Reais adicionais, a principal fonte é o empréstimo, que pode ser realizado junto de alguma pessoa de seu círculo social ou no mercado de ações, ou se atender os requisitos pode solicitar a algum banco de sua preferência. Essa última situação ocorre frequentemente e nos períodos em que há maior crescimento econômico há também maior endividamento das pessoas, das empresas e dos governos. Se uma pessoa se endivida, significa que alguém cedeu crédito. Assim, outra maneira de expressar a ideia “maior endividamento das pessoas, empresas e governos” é “maior expansão de crédito para as pessoas, empresas e governo”.

A Figura 1 mostra a evolução do porcentual da relação saldo de crédito2 dividido pelo PIB do Brasil entre 2003 e 2016. Essa relação mostra que para haver crescimento econômico é preciso que os setores da economia de um país estejam em condições de se endividar, isto é, os bancos precisam expandir o crédito. Observa-se que durante o período em que o Sr. Henrique Meirelles foi presidente do banco central do Brasil, a relação porcentual do saldo de crédito em relação ao PIB aumentou de, aproximadamente, 24% em 2003 para 42% em 2010.

Figura 1 – Evolução da proporção (%) do saldo de crédito em relação ao PIB: 2003-2016

Figura 1 – Evolução da proporção (%) do saldo de crédito em relação ao PIB: 2003-2016

Fonte: Banco Central do Brasil, indicadores de crédito (BACEN).

Essa relação crédito e PIB é explicada pela Teoria Quantitativa do Crédito (TQC) a qual foi criada pelo economista Richard Werner em 1992. De forma simples, a TQC demonstra que o crescimento econômico medido pelo PIB depende do endividamento dos setores de uma economia, em outras palavras, o crescimento econômico depende da expansão de crédito.

Em consequência do aumento do nível de endividamento, os setores econômicos possuem menores condições de se endividar, consumir e produzir. Entretanto, durante o período em que o nível de endividamento permitia o consumo e o pagamento em dia dos juros das dívidas contraídas ocorria o crescimento econômico. Porém, esse benefício possui duração limitada e gera efeito colateral negativo, que é o elevado nível de dívida das empresas, governos e famílias, os quais podem não conseguir pagar em dia pelo menos os juros das dívidas contraídas, enquanto o principal da dívida é “rolado”. Resultado, crise econômica.

Quando os referidos setores estão com níveis elevados de dívida, o consumo é reduzido, consequentemente também a produção, o que contribui para o desemprego, agravando ainda mais a crise. Desse modo, as instituições financeiras autorizadas a endividar tais setores já não podem contar com os setores familiares e empresariais para lucrar como antes, pois, os seus clientes não estão em condições de contrair novas dívidas e, além disso, já não conseguem pagar os juros devidos. No caso brasileiro, as instituições financeiras para manter a lucratividade têm à disposição os elevados rendimentos dos títulos públicos, que neste momento de crise fiscal, representam uma boa alternativa para alocação dos recursos bancários ociosos.

Neste cenário, surgem os políticos e assessores com suas medidas de austeridade como as PEC 241 (PEC 55), que visam contribuir para retirar o país da crise econômica e promover a retomado do crescimento econômico. Coincidência que o autor da PEC 241 (PEC 55) seja o Sr. Henrique Meirelles, justo ele que propiciou as condições necessárias para que os banqueiros endividassem os setores econômicos do Brasil durante o período que foi presidente do banco central. Agora pretende garantir o pagamento dos elevados juros praticados no país aos setores rentistas.

O problema é que esse tipo de solução é similar ao caso de um automóvel que apresenta problemas para funcionar e os mecânicos buscam resolvê-lo mudando peças externas quando o problema está no combustível adulterado. Nesta analogia, o carro com problema é a economia de um país, e os mecânicos são os políticos e assessores que adotam medidas de austeridade fiscal (equivalente às peças externas do automóvel) e o combustível adulterado se refere ao dinheiro oficial de um país, neste caso, o Real.

Dito de outra forma, os políticos e seus assessores buscam não tocar na ferida do problema que reside na forma como o Real é criado pelo banco central e, principalmente, pela maneira como os demais bancos expandem o crédito. Esse problema não está relacionado somente ao Real, mas, sim ao Dólar, Euro, Iene, Iuan, enfim, todas as moedas oficiais das nações que participam do atual sistema monetário internacional.

Atualmente existe o movimento internacional denominado ‘Positive Money’ que possui sede na Inglaterra e que está mobilizando economistas, sociedade civil organizada, políticos que não estão a serviço dos banqueiros e demais profissionais para mudar leis de modo que alterem a forma como o banco central de um país cria a moeda e também mudar a maneira como os bancos expandem crédito. O problema com a abordagem do ‘Positive Money’ é desconsiderar a existência de outros tipos de dinheiro. Para mais detalhes consultar “New Money for Sustainability”.

Neste contexto, será realmente que Empresas, Pessoas e Governo se Beneficiam do Crescimento Econômico? Se sua resposta for não, resta saber que outra medida poderia substituir o PIB de modo que não esconda os impactos negativos ambientais e sociais do crescimento e que não esteja a serviço do sistema financeiro de um país.

Para conhecer mais sobre outros tipos de dinheiro e como eles podem contribuir para solucionar problemas socioecológicos na escala local, regional, nacional e global, você pode ler o livro: Nuevos Tipos de Dinero para la Sostenibilidad (versão em inglês, New Money for Sustainability).

Ranulfo Paiva Sobrinho, Doutor em Desenvolvimento Econômica pelo Instituto de Economia da Unicamp, co-fundador de Sustainability.School, ranulfo@sustainability.school

Junior Ruiz Garcia, Doutor em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente pelo IE/Unicamp e professor do Departamento de Economia da UFPR, jrgarcia@ufpr.br

1 Pense na possibilidade de realizar transações econômicas usando Bitcoin, outras criptomoedas como Ethereum, ou SolarCoin. Se você é empreendedor, imagine obter crédito sem se endividar com os bancos tradicionais usando sistemas como o do banco WIR (Suíça).

2 Saldo do crédito corresponde ao somatório do saldo devedor dos contratos de crédito em final de mês. Inclui as novas concessões liberadas no mês de referência e a apropriação de juros pró-rata dos empréstimos e financiamentos. Fonte: Banco Central do Brasil.

Publicado no Portal EcoDebate.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/03/2017

“Será que os Empreendedores, as Pessoas e o Governo Realmente se Beneficiam do Crescimento Econômico? por Ranulfo Paiva Sobrinho e Junior Garcia,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/03/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/03/10/sera-que-os-empreendedores-pessoas-e-o-governo-realmente-se-beneficiam-crescimento-economico-por-ranulfo-paiva-sobrinho-e-junior-garcia/.

Economistas discutem limites do crescimento e sustentabilidade

 

Público durante o Fórum Capitalismo e Meio Ambiente
Público durante o Fórum Capitalismo e Meio Ambiente

Um baixo nível de crescimento econômico ou um crescimento zero seriam saídas para a redução do impacto da ação do homem sobre a natureza? Os parâmetros atuais de avaliação do desempenho da economia retratam com acuidade os bônus e ônus proporcionados pelo modelo capitalista adotado na maior parte do mundo? Essas são algumas das questões levantadas nesta segunda-feira (27) durante o Fórum Capitalismo e Meio Ambiente, Crescimento Zero e Desenvolvimento Sustentável, que reuniu especialistas das ciências econômicas, sociais e ambientais no Centro de Convenções da Unicamp.

Desde o início dos anos 1970 a humanidade utiliza anualmente mais recursos do que o planeta é capaz de regenerar, segundo o conceito de pegada ecológica. A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que a população mundial alcance a marca de 9,7 bilhões de pessoas até 2050, exercendo um impacto ainda maior sobre esse déficit. Os dados foram apresentados pelo economista Junior Garcia, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que abordou o tema macroeconomia ecológica e desenvolvimento sustentável.

Garcia destacou que os benefícios do desenvolvimento tecnológico das últimas décadas não foram suficientes para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa, a elevação do padrão de consumo e outras consequências da ação humana no ambiente. “Nós perdemos os ganhos de eficiência pelo efeito escala.”

Segundo o docente da UFPR, “não adianta só a tecnologia, porque até agora ela não se mostrou como uma contribuição de fato ao problema”. Como pesquisador, ele propõe a criação de instrumentos teóricos e metodológicos para o debate de crescimento zero ou baixo crescimento na macroeconomia, de maneira a considerar os limites desse crescimento, sob a ótica ambiental, e os benefícios qualitativos dessa expansão. “Senão, ficaremos discutindo crescimento sem de fato uma transformação social.”

Mesa de abertura do Fórum
Mesa de abertura do Fórum

Um colapso ambiental está no horizonte e já podemos perceber alguns sinais dele, como as crescentes taxas de concentrações atmosféricas de CO2 e a elevação nas temperaturas médias globais.  Essa afirmação é do professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp Luiz Marques. Segundo ele, “as chances de desviarmos da atual trajetória de colapso socioambiental tornaram-se agora nulas ou tendem rapidamente a zero”, pois, “cessando a causa não se cessa o efeito”.

O professor de economia da USP Ricardo Abramovay concorda com Marques e acrescenta que “não há dúvida de que as sociedades contemporâneas estão fazendo muito menos do que poderiam e, sobretudo, do que deveriam para enfrentar os grandes problemas socioambientais”. Para ele, a qualidade do crescimento é o que deveria ser importante, e a tecnologia deve estar a serviço das necessidades humanas e do meio ambiente. No entanto, ele estima que existam forças sociais aliadas à tecnologia capazes de mudar o curso das coisas.

Mais otimista, José Eli da Veiga, professor de economia da USP, questionou critérios metodológicos do cálculo da pegada ambiental e defendeu que existe a necessidade de se reavaliar os reais riscos ambientais. “Não existem evidências científicas, a meu ver, que dizem que o colapso ambiental esteja no horizonte”. Para ele, é possível o capitalismo ser sustentável, contudo, não por meio do crescimento zero, uma “ideia muito problemática e infeliz, que não deveria ser seguida”. Veiga defende que o desempenho da economia não deveria ser medido pelo Produto Interno Bruto (PIB), que calcula a produção de um país, mas sim baseado no consumo domiciliar.

O economista Ademar Ribeiro Romeiro, um dos organizadores do evento e professor do Instituto de Economia da Unicamp, foi enfático ao defender que há um limite para o uso dos recursos naturais, mas ainda não se sabe qual é. Sobre o excessivo uso de combustíveis fósseis, o professor do IE apontou sua importância como uma das fontes de pressão antrópica. Para Romeiro, é necessário aumentar a eficiência ecológica, ou seja, produzir a mesma coisa com menos recursos e menos impactos. “Vai ser possível aliviar consideravelmente o impacto antrópico com essas tecnologias.” Capitalismo ou não, para o professor não importa o nome do sistema e sim o processo.

Um dos pesquisadores interessados em avaliar os impactos do crescimento reduzido é Peter Victor, professor de Estudos Ambientais da York University. Victor – que participou do evento direto do Canadá, por meio de teleconferência – apresentou estudos sobre os efeitos que o baixo crescimento exerceria na economia canadense. Empregando uma ferramenta de modelagem baseada na dinâmica de sistemas, ele mostrou que é possível combinar pleno emprego, eliminação da pobreza e proteção do ambiente em uma situação de baixo crescimento em um país desenvolvido.

O Fórum Capitalismo e Meio Ambiente, Crescimento Zero e Desenvolvimento Sustentável foi realizado pelo Fórum Pensamento Estratégico (Penses) da Unicamp. O Penses é um espaço acadêmico, vinculado ao Gabinete do Reitor, responsável por promover discussões que contribuam para a formulação de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento da sociedade em todos seus aspectos.

Publicado no Portal da Unicamp: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2017/03/28/economistas-discutem-limites-do-crescimento-e-sustentabilidade

Fórum Capitalismo e Meio Ambiente, Crescimento Zero e Desenvolvimento Sustentável


Fonte da imagem: https://goo.gl/5MXajQ

Data de realização: 27 de março de 2017
Horário: das 9h às 17h:30min
Local: Centro de Convenções da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

A problemática ambiental tem influenciado cada vez mais a definição de políticas públicas, embora não na profundidade necessária, segundo a maior parte dos analistas, para evitar catástrofes ambientais num prazo relativamente curto. A ameaça global mais urgente é a emissão de gases de efeito estufa. A eleição de Donald Trump poderá atrasar fatalmente a redução das emissões de carbono. A maioria dos especialistas ambientais considera que nos países desenvolvidos com demografia estável o crescimento econômico já não acrescenta mais bem-estar, podendo mesmo reduzi-lo.

Nesse sentido, seria possível com políticas macroeconômicas adequadas reduzir progressivamente o crescimento econômico sem afetar o bem-estar, desde que se preserve o nível de emprego. No caso dos países pobres o crescimento econômico é necessário, porém deveria ser um crescimento econômico mais eficiente ecologicamente, sem repetir erros cometidos, caracterizando o que seria um processo de desenvolvimento sustentável até atingir um nível de conforto material similar àquele dos países já desenvolvidos. A partir de então as atividades econômicas do conjunto dos países seria mantida dentro da capacidade de suporte ecológico do planeta.

Quais as políticas macroeconômicas, bem como as mudanças organizacionais e institucionais necessárias para que esse quadro se torne possível?
Essas mudanças seriam factíveis no quadro de um sistema expansivo como tem sido o sistema capitalista?
Essas são as perguntas fundamentais para cujas respostas, esperamos, o evento possa contribuir.

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