Crescimento, recessão e desenvolvimento

Por Junior Garcia e Ellen Nemitz

A sociedade tem convivido e acreditado na suposição de que todos os seus problemas podem ser resolvidos apenas com crescimento econômico. O recente debate em torno do baixo crescimento da economia brasileira tem evidenciado essa crença. Todavia, a história mostra que o crescimento econômico pode resolver apenas parte dos problemas, porque em determinado momento o crescimento pode contribuir para a intensificação dos problemas e até mesmo para o surgimento de novos. O debate sobre os problemas sociais e ambientais que tem preocupado a sociedade é evidência dos custos crescentes desse crescimento. Não existe almoço grátis. Talvez a sociedade brasileira esteja vivendo um momento em que, em vez de discutir medidas para a manutenção do crescimento, a discussão deva ser sobre o tipo de crescimento de que necessitamos, ou se o crescimento nas bases atuais ainda pode resolver os problemas.

Os indivíduos têm aprendido apenas a lidar com a presença de crescimento – por exemplo, aumento da renda, da produção e do consumo. Se não há aumento da renda, produção e consumo, os analistas afirmam que estamos em recessão, ou que estamos no pior dos mundos. Contudo, as decisões de produção e consumo nem sempre afetam positivamente o bem-estar coletivo. Parece que não existe qualquer custo associado a essas decisões, e muito menos que existe um limite ao crescimento, embora vivamos em um espaço finito, a Terra. O estudo da Global Footprint Network (GFN) revelou que, em 19 de agosto, a sociedade esgotou todos os recursos que os ecossistemas da Terra são capazes de oferecer de forma sustentável no período de um ano. Não há limite para o crescimento material e energético da sociedade?

Vale destacar que qualquer decisão de produção ou consumo sempre resulta em custos, e normalmente estes não entram no cálculo econômico. Por um lado, essa distorção representaria um subsídio à produção e ao consumo, já que o preço não reflete o real custo de produção. Por outro, se traduz na perda de bem-estar para parcela da sociedade. Por exemplo, o uso de um veículo movido a gasolina contribui para o aumento das emissões de inúmeros gases nocivos à saúde de todos os seres vivos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que 7 milhões de pessoas morreram em 2012 por doenças relacionadas à poluição atmosférica! Não há custo para o crescimento material e energético da sociedade?

Como a sociedade acredita que o bem-estar somente pode ser alcançado com crescimento, não existem muitos modelos teóricos que lidem com uma situação de baixo crescimento, ou mesmo crescimento nulo. Isso tem ocorrido porque a sociedade tem sido orientada por um modelo econômico em que crescer é a única opção. Desse modo, a solução para qualquer problema é o crescimento. Um fim em si mesmo. A crise do setor automobilístico brasileiro é um bom exemplo para ilustrar essa situação. Embora o setor tenha registrado recordes de vendas por vários anos, com uma produção de quase 4 milhões de unidades, alguns meses de queda nas vendas geraram uma crise no setor. Mesmo com a manutenção da redução da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), o setor passa a conviver com pátios cheios, e qual a solução? Pressionar o governo para obter mais benefícios para retomar a trajetória de crescimento; caso contrário, a solução será a redução do quadro de trabalhadores.

No contexto da economia brasileira, com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 4,8 trilhões, mais crescimento econômico se traduzirá em aumento do bem-estar? Será que não devemos rediscutir o papel do crescimento na geração de bem-estar? Que setores e regiões realmente precisam de crescimento? O governo deveria estimular os setores que realmente contribuam para o desenvolvimento, entendido como melhoria da qualidade de vida – por exemplo, transporte coletivo, educação, saúde, saneamento básico e um ambiente urbano mais adequado à vida. No entanto, como a sociedade sobreviverá em um cenário de baixo crescimento ou mesmo nulo, que se materializa em um horizonte não muito distante, se não existem modelos que possam orientá-la neste novo contexto?

Junior Ruiz Garcia, doutor em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente pelo Instituto de Economia da Unicamp, é professor do programa de pós-graduação em Desenvolvimento Econômico do Departamento de Economia da UFPR.

Ellen Nemitz, jornalista, é mestranda no programa de pós-graduação em Desenvolvimento Econômico do Departamento de Economia da UFPR.

Publicado na Gazeta do Povo, 31/08/2014, Caderno de Opinião.

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