O dinheiro e as crises econômicas, sociais e ambientais

Por Ranulfo Paiva Sobrinho e Junior Ruiz Garcia

A discussão sobre o papel da dimensão ambiental na análise econômica tem sido marginalizada, reduzindo o poder explicativo dos modelos teóricos frente aos problemas socioambientais no século XXI. Um exemplo é a ausência de uma discussão a respeito da relação entre a criação do dinheiro e as crises econômica, social e ambiental. Na abordagem convencional, a criação do dinheiro está apenas na discussão sobre a inflação, porque a economia real não seria afetada pela variação na quantidade de dinheiro.

A criação de dinheiro no atual sistema monetário internacional pode contribuir para as crises econômicas, sociais e ambientais. Quando um país possui déficit em conta corrente, geralmente, este é financiado pelos recursos da conta financeira. Parte desses recursos são alocados no mercado monetário, possibilitando que os bancos aumentem a oferta do crédito para os agentes. Esse fluxo aumenta conforme mais recursos entram no mercado monetário e os agentes estejam em condições de se endividar, aumentando o consumo, investimento e a especulação nos mercados.

Quando os agentes atingem níveis elevados de endividamento, a ponto de atrasarem ou não pagarem os juros devidos, os recursos do mercado monetário são alocados para países onde os agentes possam se endividar e que atendam as condições para a expansão do crédito. Com a redução dos recursos financeiros, os bancos reduzem a oferta de crédito e podem elevar a taxa de juros. A redução do crédito prejudica as empresas que necessitam de capital de giro e as famílias que financiam seu consumo. Essa dinâmica pode desencadear a crise econômica, com sérias consequências sociais e ambientais, como a que o Brasil está vivendo.

Durante a expansão do crédito, dependendo dos setores que obtêm os empréstimos, o resultado pode elevar a pressão sobre recursos ambientais, como a construção de novas termoelétricas, o avanço da fronteira agrícola e o desmatamento. Essa pressão serve para atender uma demanda momentânea, gerada pela expansão do crédito sem nenhuma sustentação na renda. Quando ocorre uma redução no crédito ou o nível de endividamento compromete o orçamento dos agentes, temos a redução do consumo e da produção. Porém, a degradação ambiental é irreversível e a sociedade sofrerá com a perda de importantes recursos ambientais e aumento dos conflitos socioambientais. Veja o caso da crise hídrica em São Paulo.

Um elemento central dos problemas econômicos, socioambientais é a forma como a moeda é criada pelos bancos, que a criam a partir do momento que seu cliente se endivida. Infelizmente a sociedade desconhece essa dinâmica e sua interface com as crises, e somente uma minoria sabe responder a questões como: o que é dinheiro? Existem outros tipos de dinheiro que podem ser criados sem a necessidade dos bancos? É possível a comercialização sem a intermediação do dinheiro de um país? Esse desconhecimento se estende aos políticos, economistas, administradores, ambientalistas, empresários, entre outros. Essa situação impede que sejam adotadas medidas mais adequadas para evitar as crises e seus desdobramentos sociais e ambientais.

Parte do problema se deve ao fato de que o sistema de ensino não está preparando o cidadão para essa nova realidade. Nem as universidades discutem esse processo, quanto mais a relação entre a criação do dinheiro e as crises. Neste contexto, a plataforma de ensino Sustainabily School* procura preencher essa lacuna, discutindo em linguagem acessível a conexão entre dinheiro e as crises, assim como, possíveis soluções. Recentemente, lançou-se o livro ‘Nuevo Dinero para Sostenibilidad’**, que apresenta uma reflexão sobre este tema.

Se realmente desejamos enfrentar os problemas que afetam nossas vidas e das futuras gerações no século XXI, é preciso conhecer mais sobre a relação entre a criação do dinheiro e o desencadeamento das crises, porque sem mudar a forma como o dinheiro é criado, é tapar o sol com a peneira.

* http://www.sustainability.school

** Para adquiri-lo visite: http://sustainability.school/es/dinero/. A versão em português está em desenvolvimento.

Ranulfo Paiva Sobrinho, Doutor em Desenvolvimento Econômica pelo Instituto de Economia da Unicamp, ranulfo17@gmail.com

Junior Ruiz Garcia, professor do Departamento de Economia da UFPR, jrgarcia@ufpr.br

Publicado na Gazeta do Povo, 12/10/2016, Caderno de Opinião.

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