Por que devemos abandonar o foco em PIB e crescimento

Por Lorenzo Fioramonti, professor de Economia Política na Universidade de Pretoria (África do Sul), onde dirige o Centro para Estudo da Inovação em Governança.

Publicado originalmente em The Conversation, May 28, 2017. Acesse o artigo original.

O artigo foi traduzido por João Pedro Caleiro com permissão do autor, publicado em 18 de junho de 2017, no Portal Exame.com. Acesse o artigo traduzido.

“Se um país corta e vende todas as suas árvores, ganha um impulso no PIB. Mas nada acontece se ele as preservar”, diz professor sul-africano

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A ideia de que o “bolo” econômico pode crescer indefinidamente é sedutora. Significa que todos podem ter um pedaço sem precisar limitar a ganância de ninguém.

A desigualdade fora de controle se torna então socialmente aceitável, porque esperamos que o crescimento econômico eventualmente deixe todos em uma situação melhor.Em meu novo livro “Wellbeing Economy: Success in a World Without Growth” [“A Economia do Bem-Estar: Sucesso em um Mundo sem Crescimento”, em tradução livre] eu aponto que a regra de “crescer primeiro” dominou o mundo desde o início do século XX.

Nenhuma outra ideologia foi tão poderosa: a obsessão pelo crescimento atravessou tanto sociedades capitalistas quanto socialistas.

Mas o que exatamente é o crescimento? Estranhamente, esta noção nunca foi desenvolvida de forma razoável.

Para o senso comum, há crescimento quando – todo o resto mantido constante – nossa riqueza geral aumenta. O crescimento acontece quando geramos valor que não estava lá antes: por exemplo, ao educar as crianças, melhorar nossa saúde ou preparar alimentos. Uma pessoa mais saudável, educada e bem nutrida é certamente um exemplo de crescimento.

Se qualquer destas atividades gerar alguns custos, para nós individualmente ou para a sociedade, o deduzimos do valor criado. Por essa abordagem lógica, o crescimento equivale a todos os ganhos menos todos os custos.

De forma paradoxal, nosso modelo de crescimento econômico faz exatamente o oposto do que o senso comum sugere.

Valores negativos do crescimento

Aqui vão alguns exemplos. Se eu vendo meu rim por algum dinheiro, então a economia cresce. Mas se eu educo meus filhos, preparo alimentos e cozinho para minha comunidade, melhorando as condições de saúde do meu povo, o crescimento não acontece.

Se um país corta e vende todas as suas árvores, ganha um impulso no Produto Interno Bruto (PIB). Mas nada acontece se ele as preservar.

Se um país preserva espaços abertos como parques e reservas naturais para o benefício de todos, ele não vê essa melhora no bem-estar humano e ecológico refletida em sua performance econômica.

Mas se os privatiza, comercializando os recursos presentes e cobrando taxas dos usuários, então o crescimento acontece.

Preservar nossa infraestrutura, a tornando durável, de longo prazo e gratuita adiciona zero ou apenas marginalmente para o crescimento.

Destruir, reconstruir e fazer com que as pessoas paguem para usá-la, por sua vez, é um impulso para a economia do crescimento.

Deixar as pessoas saudáveis não tem valor. Deixá-las doente tem. Um sistema de saúde público efetivo e de prevenção está aquém do ideal para o crescimento: é melhor ter um sistema altamente desigual e disfuncional como o americano, que responde por quase 20% do PIB do país.

Guerras, conflitos, crimes e corrupção são amigos do crescimento no sentido de que forçam as sociedades a construir e comprar armas, instalar travas de segurança e aumentar o valor que o governo paga em contratos.

O terremoto em Fukushima, assim como o derramamento de óleo da Deepwater Horizon, foram maná para o crescimento, pois exigiram gastos imensos para limpar a bagunça e reconstruir o que foi destruído.

Continue a leitura.

 

Fonte: Exame.com
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